Moebius Path


07/03/2011


 
 

Vampiros

 

Esta é (por enquanto) a quinta vez que eu resolvo escrever sobre o assunto. Eu cheguei a pesquisar, separei imagens de vários vampiros, desde "Nosferatu" (do filme alemão de 1922) até o imperdível "Dracula, de Bram Stoker", dirigido pelo fantástico Francis Ford Coppola, lançado 70 anos depois, passando por Bela lugosi e Cristopher Lee (Referência obrigatória quando se fala em vampiros no cinema).

 

 

Sou fã confesso e de carteirinha das criaturas da noite, e já assisti, li e joguei muita coisa relacionada ao assunto - Só para citar alguns, há o "Vampiros - de John Carpenter", onde os vampiros infestam o deserto do Novo Mexico, se escondendo em minas, casas abandonadas ou simplesmente se enterrando na areia. Ainda no meio do deserto, temos "Um Drink no Inferno", com George Clooney e Quentin Tarantino que vão parar em um bar onde os vampiros são strippers - idéia já explorada em "Vamp" (o filme, não a novela) de 1986, com a Grace Jones. Ainda na linha de vampiras cantoras, dá para citar "A Rainha dos Condenados" , onde a vampira Akasha é vivida pela cantora pop Aaliyah, que morreu em um desastre de avião seis meses antes do lançamento do filme.

 

Valek - Vampiros, de John Carpenter

Recentemente, as histórias de vampiros voltaram à moda, graças à saga Crepúsculo, de Stephanie Meyer. Aviso que deste ponto em diante vou revelar uma série de fatos sobre a saga que podem estragar algumas surpresas, ou em outras palavras, vou sentar o sarrafo na saga, se você não conhece toda a história e acha que eu posso revelar alguma coisa, pule para outro tópico agora, porque é isso que eu pretendo fazer.

 

A saga conSpoiler Alertta a história de Bella, a adolescente mais egoísta, insegura e manipuladora que eu já tive a chance de conhecer (é sério, eu nunca conheci um personagem tão egoísta em nada do que eu li ou assisti).

Todos os quatro livros da saga (exceto 1/3 do último livro) são narrados em primeira pessoa, do ponto de vista da Bella, uma adolescente de 17 anos que se muda para uma minúscula cidade do interior dos Estados Unidos e se apaixona por Edward, um vampiro de cento e poucos anos, mas com um corpinho também de 17, telepata e que por algum motivo que me escapa à compreensão fica interessado pela mala-sem alça da Bella.

Edward faz parte de uma turma de vampiros bonzinhos, que se juntaram em algo que eles chamam de família, freqüentam a escola e tiram boas notas. Eles se auto-intitulam "vegetarianos" por que não bebem sangue humano, mas o de animais que eles caçam nas florestas dos arredores. (Na minha opinião, se eles bebessem o sangue dos personagens humanos, que têm em geral o QI de uma couve-flor, aí sim eles poderiam se chamar vegetarianos.)

como em toda a história, o autor resolve criar o seu diferencial, para que a história não caia na mesmice. Em Crepúsculo, todo vampiro é um ser belíssimo, forte e rápido, não tem presas, o corpo deles é sólido e frio como o mármore e ao serem expostos ao sol, eles cintilam como um diamante, ao invés de entrar em combustão e virar cinzas.

 

Até perdôo o fato dos vampiros não terem presas (Em "Fome de Viver", com Catherine Deneuve, Susan Sarandon e David Bowie, os vampiros não têm presas, passam décadas ou séculos sem envelhecerem, até que o corpo entra em colapso e eles envelhecem aceleradamente até a completa decreptude, mas sem morrer), mas a idéia de um vampirinho teen-purpurinado como uma passista de escola de samba desfilando ao amanhecer acaba comigo.

Não posso dizer que nada nas mais de 1000 páginas da série se  salva, os lobos - índios da reserva local que se transforma em lobos gigantes e caçam vampiros são divertidos e carismáticos - além da Alice, uma das "irmãs" de Edward, que tem um senso de humor descente e o dom da clarividência - A cena do livro em que Alice joga xadrez com Edward é bem sacada, ela prevê o movimento que ele irá fazer enquanto ele lê a resposta da mente dela, ambos estáticos em frente ao tabuleiro intocado até o momento que um dos dois derruba o próprio rei encerrando a partida.

Agora, analisando a obra como um todo, parece que ela foi escrita por uma pré-adolescente que sonha em ser disputada por um príncipe encantado e um bad-boy de bom coração. Os personagens são superficiais, desde a protagonista até os vilões e a trama é o basicão do água com açucar. Alguns exemplos do que eu estou falando (Sério, se você não leu o "Spoiler alert" aqui vai o final da saga também).

 

Crepúsculo

 

1 - A narrativa em primeira pessoa deixa a série cansativa, Bella é carente, tem a auto-estima baixíssima e é manipuladora - além de ter todo aquele "O Edward é lindo, maravilhoso, perfeito, cheiroso, ele nunca vai se interessar por alguém sem graça como eu"

 

2 - Edward é um vampiro centenário, que para que ele e sua família possam viver sem despertar suspeitas, cursa o ensino médio em uma cidadezinha chuvosa. Ele nota Bella a princípio como alimento, aparentemente o cheiro dela (e do sangue dela) desperta o apetite dele por sangue absurdamente. Inexplicavelmente Edward, que é telepata não consegue ler a mente de bela e se apaixona por ela por conta disso - nota pessoal: Não há nada lá para se ler. Alguém com a maturidade de 25 ou 30 anos jamais se interessaria por ela, o que um cara com cento e poucos veria é um mistério.

 

3 - Os vilões do primeiro livro (ou filme, mas vou me referir apenas como se fossem livros) são errantes que encontram com ela por acaso, o líder deles (James) achou que Bella iria bem como lanchinho e acaba sendo morto por isso - O que desperta a fúria da namoradinha Victória que passa os dois livros seguintes tentando se vingar. Pela lei do Talião (olho por olho, dente por dente), Victória se acharia vingada se matasse o amor de Edward, como ele fez com ela. Existia milhares de maneiras de isso acontecer, mas, aparentemente Victória era burra  sem imaginação. (Falo mais sobre essa vingança em outro tópico)

 

4 - No segundo livro, na festa de aniversário que os Cullen (a família de vampiros) oferece à Bella, ela se corta com o papel de um envelope, o que faz com que Jasper, o integrante "vegetariano" mais novo do grupo surtasse e partisse para cima da aniversariante, que foi defendida por Edward, que jogou-a para o outro lado da sala arrebentando ela inteira de encontro a um espelho. Isso me levanta a seguinte questão: Já que vai todo mundo para a escola, fingindo ser adolescentes e o cara surtou com uma gota de um arranhão de papel, as mulheres que freqüentam essa escola não menstruam?

 

5 - De adolescente chato, Jacob, que virou um "lobisomem" cresceu e virou o bad-boy amigo e apaixonado por Bella (Pelo menos ele tinha idade e imaturidade para aturar a mala), as passagens que eles passam quando os Cullens se afastam por conta da festa são provavelmente o melhor de toda a saga, embora a monomaníaca da Bella fique alucinando e tendo visões do Edward toda vez que a adrenalina sobe. (A princípio imagina-se que ele está por perto e alguma coisa na telepatia dele faz com que ele a avise dos perigos, mas não, ela é psicótica mesmo.)

 

6 - Eles encontram os maiorais do mundo dos vampiros, os Volturi, um clã italiano que não deixa que os vampiros se espalhem demais e preferem o anonimato. Os Volturis são milenares e ainda assim se deixam enganar por Bella, Edward e Alice.

 

7 - No terceiro livro, após dois flash-backs (de Rosalie e Jasper - que têm a história bem interessantes) começam os preparativos para a batalha que vai haver entre o exército de recém-formados da Victoria e a "galerinha do bem", tudo isso mara ninguém machucar a Bella princesa indefesa, que faz o que? Resolve que se ela não pode assistir ao jogo por ser a única humana, ela tira do campo o Edward e o Jacob para que eles fiquem em segurança com ela, obrigando os dois a se aturarem dentro de uma barraca no meio do nada. Ela deixa claro o tempo todo que vai ficar com Edward, mas quer manter o outro sempre por perto, o que é bem irritante. Acaba a batalha e nenhum bonzinho morre.

 

8 - No livro final, Bella se casa, vai para o Rio de Janeiro, engravida, quase morre no parto, é mordida e vira uma feliz vampirinha com o poder de não ter a mente lida (ainda afirmo que não é um poder, simplesmente não há nada lá para ser lido), mas uma vampira invejosa, no melhor estilo "Al Cagüete", conta para os Volturi que existe uma criança vampira (O que na saga é pior do que gritar "Parmeeeeeras!" em casa de corinthiano). Armam-se exércitos, criam-se estratégias e treinamentos. Bella descobre que pode projetar o seu escudo para a "galerinha do bem" e os Volturi correm com o rabo entre as pernas sem o derramamento de uma gota de sangue. (Exceto da Al Cagüete que é queimada ali mesmo na frente de todo mundo e fica tudo por isso mesmo.)

 

9 - Agora para finalizar, imagine dois clãs de vampiros sedentos de sangue (literalmente), mais uma trupe de lobos gigantes em campo aberto se encarando, aonde vampiros seculares e até milenares, com todo orgulho e honra de guerreiros sai com o rabo entre as pernas porque uma adolescente pentelha (a SuperBella) impede que hajam ataques mentais, isso é coisa que só pode ter saído da cabeça de uma adolescente recalcada. Outra coisa, Dois livros inteiros foram usados porque a ruiva "Victória" teve seu peguete mandado para a terra dos pés-juntos, os Volturi incineram a irmã de duas vampiras na frente delas e todo mundo deixa barato porque ela deu uma informação errada?

 

10 - Mensagem do filme: "Se você for egoísta, insistente e manipuladora o bastante, você consegue tudo o que quer."

 

Sinceramente, entre os livros e os filmes, prefira nesse caso os filmes, o sofrimento é mais curto.

P.S.: Só para deixar registrado (ainda na categoria de "Spoiler Alert", eu acho o cúmulo da "cara de pau marketera" (se a palavra não existe, desculpem, mas não achei outra melhor) dividir o último livro em dois filmes (mal há a história para um filme decente), não sei quando o primeiro dos dois será lançado, mas aposto que depois de duas horas de um romancezinho meloso e drama adolescente, o filme acaba coma Bella dando a luz e o suspense dela sobreviver ou não jogado para o outro filme.

 

Categoria: Mundo Nerd
Escrito por Raposo às 22h23
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Doom e a Renascença Italiana

Último natal, eu ganhei dois livros sobre artes, um que fala sobre a história das artes e o outro é uma seleção de 100 artistas, desde o início da Renascença até os dias de hoje.

 

É interessantíssimo como determinados assuntos nos puxam para outros, por vezes, inesperados. Eu lia sobre um pintor chamado Giotto, e o que me chamou atenção a respeito dele é que ele implementou em sua arte o (na época) revolucionário conceito da perspectiva, criado por um arquiteto amigo seu chamado Filippo Brunelleschi.

Filippo Brunelleschi

 

Brunelleschi descobriu que ao convergirem as linhas de um desenho para um único ponto, cria-se a ilusão de profundidade. Por mais óbvio que isso possa parecer, nos idos de 1300, o padrão para a pintura que era o gótico/bizantino apresentava figuras humanas estilizadas e não havia a sensação de profundidade nos trabalhos. Esse conceito foi na época essencial para que as artes começassem a retratar o mundo de maneira mais realista e romper com a bi-dimensionalidade com que os artistas retratavam o mundo.

Em paralelo, percebemos que em nossa época, mais ou menos a mesma coisa acontecia em relação aos jogos, onde tudo se movia apenas nos eixos X/Y (Horizontal e vertical). Claro que não podemos ignorar que haviam embriões do que seria o mundo em 3d lá pelo início da década de 80 (Só para citar, os labirintos dos adventures Ultima e Wizardry ou até o Battlezone, um competente combate de tanques poligonais.)

A grande revolução veio com o Wolfenstein 3D, que permitia que você explorasse o ambiente do castelo, com elevadores e passagens secretas (Tudo já sob o conceito de três dimensões). O que, na minha humilde opinião, matava um pouco o jogo, é que o Wolf3d tinha o "teto baixo", ou seja, apesar de toda a perspectiva e sensação de tridimensionalidade, ele passava sempre a sensação de estar jogando dentro de uma caixa - o que combinado com as cores chapadas dava dor de cabeça na maioria das pessoas.

 

Doom 1

 

Doom, o próximo jogo da IdSoftware, por outro lado tinha desníveis, escadas, salões e até campos abertos, sem falar emalguns efeitos de iluminação, o que deixava o jogo bem mais tenso. A sensação que você tinha quando saía do primeiro corredor para um ambiente amplo, com uma ponte sobre uma piscina radiativa era impressionante para a época. Claro, nos dias de hoje, Doom está obsoleto, há muitos jogos com qualidade e ambientação quase cinematográficas, mas o fato é que, sem Doom, é possível que a evolução dos shooters tivesse tomado outro caminho ou até mesmo não tivesse acontecido.

 

Em suma: Nem em seus mais insanos sonhos, Brunelleschi imaginaria que sua descoberta resultaria em demônios sanguinários massacrados por estridentes serras-elétricas e tampouco nossos psicóticos virtuais de plantão atribuiriam suas fontes de prazer a um arquiteto italiano do século XIV.

Categoria: Do Pincel ao Pixel
Escrito por Raposo às 20h22
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